• Carlos MSilva

A construção de um Modelo de Jogo

Atualizado: 28 de Ago de 2019

No post desta semana, vou partilhar contigo a forma como se constrói um Modelo de Jogo.


Podes ser um treinador que está a começar e podes utilizar esta forma de construir o teu primeiro modelo de jogo, ou podes ser um treinador que já começou a algum tempo que já tem o seu modelo de jogo, mas que pode acrescentar ideias e detalhes aperfeiçoando-o.


Antes de te dar algumas ferramentas para começares a construir ou a aperfeiçoar, será importante talvez entender primeiro o que é um modelo de jogo, para que serve e porque é importante ter um.



O que é um Modelo de Jogo?


O Modelo de Jogo é um modelo, que como o nome indica, cria de forma organizada e esquematizada, a forma como tu queres que a tua equipa jogue no dia da competição. Em si, o modelo não é um objetivo de resultado. O resultado que normalmente se pode definir é o da vitória.


O Modelo de Jogo é a FORMA como tu queres que a tua equipa jogue para vencer determinado jogo.


A FORMA como queres vencer o jogo, tem de incluir 2 principais FORMAS:

1. A FORMA como vais marcar mais golos que o adversário.

2. A FORMA como vais sofrer menos golos que o adversário.


Estas duas formas são claras, pois para vencer temos de marcar mais golos ou sofrer menos golos.


Até aqui, tudo certo.

Certo?


Portanto existem 2 sub-objetivos para chegar ao objetivo do jogo, a VITÓRIA. Os dois sub-objetivos é MARCAR MAIS GOLOS, e SOFRER MENOS GOLOS.


Algumas pessoas dizem-me por vezes: Carlos isso é obvio!


Mas quando vejo jogos de futebol nem sempre vejo equipas com estes dois objetivos. Algumas equipas, procuram apenas um destes sub-objetivos, que é o de sofrer menos golos que o adversário.


Aliás, existem ainda outras equipas, que o objetivo do jogo não é a vitória mas antes PONTUAR. E está tudo bem. O que quero reforçar é o objetivo do jogo, o motivo pelo qual os adeptos vão ao jogo. Não os objetivos que alguns treinadores têm de acordo com as suas estratégias pontuais.


É por quererem coisas diferentes que normalmente acontecem os conflitos entre os adeptos, o clube e o treinador. Claro está que este será um tema para falarmos no Modelo de Liderança de Equipas num próximo post.


Fiz a apresentação deste Modelo em Os 4 Modelos de Jogo para jogar a Profissão de Treinador, podes verificar por aqui: clicar aqui.


Então, o Modelo de Jogo é a FORMA como tu procuras chegar ao teu objetivo da vitória em cada jogo.


Em cada jogo, procuramos atingir a vitória porque ao final da época queremos atingir um determinado objetivo:

  • 1. ser campeão,

  • 2. atingir um lugar que dará acesso a um prémio (acesso a uma participação em outra competição),

  • 3. manutenção,

  • 4. ou não ficar dentro dos lugares que levam à descida de divisão.


Como queremos atingir um destes 4 resultados durante a época, convém definir o que a equipa será CAPAZ DE FAZER para conseguir esse resultado escolhido. O que ela será capaz de demonstrar em campo, e a forma como o faz, será então a representação em comportamentos

  • estratégico

  • tático

  • técnico

  • físico

  • mentais


O conjunto destes comportamentos, de forma sequencial, organizada e esquematizada será o Modelo de Jogo.



Para que Serve ter um Modelo de Jogo?


Muitos treinadores têm uma ideia de como querem que a sua equipa jogue. Muitas ideias, muitos princípios, mas quando estes não são interligados num esquema organizado, não passam de ideias. As ideias do treinador. Quando as organizamos então podemos inseri-las num esquema que irá nos ajudar a ter uma visão mais global e uma visão mais específica.


Ao estar claro para nós como treinadores estará claro também para a equipa técnica e para os atletas. Em muitos casos que acompanho como mentor e coach de treinadores desde a 1ª liga a ligas internacionais, vejo que este modelo não é construído.


O treinador principal tem ideias na sua mente, mas não as torna claras para os seus adjuntos, por vezes até muda as ideias num treino, uma a 2 vezes.

Se nem para a equipa técnica as ideias estão claras, imaginemos para os atletas.


Assim, o treinador sabe o que quer, mas não consegue exprimir para que outros saibam o que ele quer. E ainda, diria que a maioria, sabe o que não quer, e quando vê alguma coisa que não

quer, intervém.


Mas o que o treinador faz é dizer: o que não quer!

E por vezes, nem consegue depois de dizer: o que não quer; vir a dizer: o que quer… deixando o atleta confuso.


Agora imagina como ficaria o adjunto se um atleta lhe pedisse para tirar uma dúvida.

O adjunto pode optar por 2 formas:

  • · não dizer nada e dizer que vai perguntar, passando por uma fase de pouca autoridade,

  • · ou pode passar por sabichão, dizer o que pensa e depois do atleta fazer o que ele diz, o treinador principal cair em cima do atleta, por não ser aquilo que quer.

Estes são vários exemplos do que os treinadores adjuntos e os atletas se queixam quando o treinador principal não tem um Modelo de Jogo e se segue pelas suas Ideias.



A Importância de ter um Modelo de Jogo?


Mas também há os treinadores que têm um modelo de jogo, mas não o usam. Eles perdem tempo a orientar os seus conhecimentos, a organizar e a esquematizar as suas ideias, mas depois quando começa a época ficaram de fora pois não tiveram convites.


Isto é um claro tema para abordarmos no Modelo de Carreira do Treinador, ou seja, a forma como o treinador se deve mexer para receber convites ainda antes da época começar. Falo nisso também no post anterior em 4 Modelos de Jogo para jogar a Profissão de Treinador, podes verificar por aqui: clicar aqui.


Um outro motivo para os treinadores que fazem o seu Modelo de Jogo não o usarem, são os treinadores que não conseguem uma ligação entre o que pensam e o que estruturam para o treino.


Eles sim, organizaram as ideias, esquematizam, falam nelas, mas depois têm muitas dificuldades em operacionalizar o que pensaram, por forma criar os seus exercícios e de colocar os atletas a fazerem o que eles dizem.


Assim, existe um vazio, entre o que o treinador diz, e o que os atletas fazem no campo.


Muitas das vezes estes treinadores pensam mesmo que a sorte deles é a competência que os atletas já têm. E mesmo até depois de terem feito um Modelo de Jogo, eles não acreditam nele, acreditando mais, em arranjar atletas competentes que consigam executar o necessário em jogo. Mas daqui surge outro problema.


Os atletas não seguem as ideias do treinador, e tendencialmente não o vêm como líder. Vêem-no talvez como um chefe por posição.


E quando as coisas começam a dar para o torto, ou os atletas culpam o treinador, ou o treinador culpa os atletas.


A relação não durará muito.

E depois sim, pode existir um treinador capaz de organizar, esquematizar e aplicar as suas ideias em exercícios que operacionalizem (coloquem em prática) o Modelo de Jogo em exercícios.


A FORMA padronizada como esses exercícios variam de treino para treino, é um Modelo de Treino. Este também será um assunto para um próximo post. Não te esqueças de deixar a informação de que queres receber estes futuros post. Ainda neste post e mais à frente digo-te como podes fazer isso.


Então, o Modelo de Jogo, sim é importante fazê-lo e tê-lo sempre à mão, sempre acessível à equipa técnica e até aos atletas, para que a comunicação flua, para que a comunicação seja clara

e aberta entre todos os intervenientes.


Este é 1 dos 6 princípios da Alta Performance das Equipas.

Princípio 1 de 6: Comunicação Aberta e Partilhada entre os diversos Intervenientes.


Bem, mas vamos lá então à FORMA…


Como se constrói um Modelo de Jogo?


Para construir um Modelo de Jogo, o treinador terá que passar por 6 grandes passos.


1. Identidade do Treinador


A primeira questão que temos de responder é, quem sou eu como treinador? Como quero que as pessoas envolventes, os adeptos, os atletas, os colegas de trabalho vejam o meu trabalho? Quais as caraterísticas que diriam sobre a minha equipa?


Por exemplo: eu (Carlos MSilva) sou altamente competitivo, e quero que as minhas equipas também o sejam.


2. Grandes Convicções do Treinador


O segundo ponto são as Grandes Convicções que o treinador tem sobre a forma como quer que a sua equipa jogue.

O Treinador Guardiola, por exemplo, tem um princípio fundamental que as suas equipas têm de ter a bola, tem de dominar com a bola.


3. Princípios Táticos

O terceiro ponto é a construção de um conjunto de princípios táticos que ajudem o treinador a sistematizar os seus Grandes princípios e as suas Convicções em prática.


Por exemplo: O Treinador Guardiola quer dominar a bola, quer ter a capacidade de guardar a bola e ter segurança até utilizar uns espaços para atrair e circular a bola rapidamente para explorar espaços que ficaram abertos.


Então, depois de ter os princípios fundamentais, o treinador começa a construir os princípios em escala (do abstrato para o detalhe) para colocar os Grandes princípios em prática.


Grande Princípio 1 » Dominar a Bola.


Princípio 1.1 » Capacidade de guardar a bola e ELIMINAR os 2 Avançados do Adversário.


Sub-Princípio 1.1.1 » guardar a bola em segurança e atrair o adversário para zona alvo num dos corredores laterais.


Sub-Princípio 1.1.2 » explorar os espaços abertos no corredor central para entrar no próximo setor.



Sub-sub-Princípio 1.1.2.1 » circulação rápida da bola em 1 ou 2 toques em linha de passe diagonal para os jogadores que se aproximam entre linhas (médios e avançados adversários)


Sub-sub-Princípio 1.1.2.2 » circulação da bola para o corredor contrário para nova zona de atração.


4. Identidade do Contexto - Cultura

O quarto ponto é a cultura emergente, ou seja, as caraterísticas que o contexto (diretores, país, adeptos) à nossa volta dá valor.


Por exemplo: o futebol de Inglaterra é mais Box to Box, o de Itália é mais Defensivo… estas são pequenas adaptações que teremos que realizar na preferência que vamos dar a alguns dos Sub-princípios.


5. Caraterísticas dos Atletas

As caraterísticas dos atletas surgem aqui como o 5 elemento. Quando temos as caraterísticas dos atletas, poderemos acrescentar pormenores aos Sub-sub-sub-princípios.


Quer seja, numa equipa de alta competição ou numa equipa de formação, as características dos atletas vão evidenciar qual o nível de flexibilidade na capacidade de resposta tática aos problemas do jogo. A única coisa que muda será a preferência por determinados Sub-sub-princípios em prol de outros.


Por exemplo:


Sub-sub-Princípio 1.1.2.1 » circulação rápida da bola em 1 ou 2 toques em linha de passe diagonal para os jogadores que se aproximam entre linhas (médios e avançados adversários)


Sub-sub-sub-princípio 1.1.2.1.1 » preferência de circulação a 1, 2 toques pelo central esquerdo por elevada capacidade de tensão no passe e elevada % de eficácia de passe, podendo realizar passe a um dos 2 médios.


Sub-sub-sub-princípio 1.1.2.1.2 » utilização de linha de passe pelo GR, em diagonal direta para o corredor contrário por facilidade em passe longo e dificuldade em passe curto sobre pressão do avançado.


6. Princípios Tático-Estratégicos (Plano de Jogo)

O próximo elemento são os princípios tático-estratégicos. Estes interferem na ordem de preferência de acordo com o que será mais importante para um determinado jogo em prol de outro.


Por exemplo:


Sub-sub-Princípio 1.1.2.1 » circulação rápida da bola em 1 ou 2 toques em linha de passe diagonal para os jogadores que se aproximam entre linhas (médios e avançados adversários)


Sub-sub-sub-princípio 1.1.2.1.3 - num determinado jogo vamos dar preferência às transições de espaço por dentro, pelos centrais (se o adversário tende a fechar mais os espaços externos),

Sub-sub-sub-princípio 1.1.2.1.4 » em outros jogos vamos dar preferência às transições de espaço por fora, nos laterais, (se o adversário tende a fechar mais os espaços internos).

A construção do Modelo de Jogo serve para que todos conheçam as preferências de decisões que têm de ser tomadas. Assim, transformamos as ideias do treinador em situações práticas, que todos têm conhecimento, porque no jogo, não é o treinador que decide, mas sim os atletas.


Neste caso, é fundamental que os atletas possam decidir também nos treinos com a direção do treinador. Ora, se os atletas têm de decidir, precisam de conhecer e precisa-se que haja clareza nas ideias.


ó assim, os atletas podem decidir de acordo com os ideais do treinador. Esses ideais que são formulados de acordo com as caraterísticas:

  • · do treinador,

  • · do contexto,

  • · da cultura do clube,

  • · dos atletas, e

  • · do adversário;


Quanto mais existe clareza, provavelmente existirá facilidade na tomada de decisão dos atletas.

Estes são exemplos para que se possa entender as estruturas que estão por detrás da construção de um Modelo de Jogo.


Não se visa a cópia dos princípios ou dos sub-princípios.

Entende-se que cada treinador deve construir as suas ideias e fazer esse trabalho, somatizando (ou seja incorporando as suas ideias da sua mente para o seu próprio corpo) e operacionalizando (ou seja, colocando em prática nos exercícios de treino) para conseguir que os atletas somatizem (ou seja, incorporem no corpo as ideias do Modelo de Jogo), para que no jogo se demonstrem competentes na resolução de problemas.


Existem inúmeras ferramentas online que nos ajudam na organização e sistematização do Modelo de Jogo. Partilharei brevemente algumas dessas ferramentas porque senão este post ficaria demasiado grande. Será fácil seres recordado do momento em que sair o próximo post, ao clicares para seres avisado.


Quantas e quantas vezes eu perdi conteúdos interessantes em empreendedorismo, uma das outras áreas que trabalho, onde ajudo empresas a prosperar e a aumentar o lucro, e que perco de vista os conteúdos dos blogues porque não peço para ser avisado. Às vezes as respostas dos problemas pelos quais estou a passar estão lá disponíveis, mas não tenho acesso a elas, porque não tenho o hábito de lá ir visitar o blog de vez em quando e também porque não pedi para ser avisado. Mas agora já mudei a minha forma de ver e de estar, e peço para ser avisado com sentido a aumentar a minha produtividade.


Se interessa vejo, se não interessa sigo em frente, mas sou avisado, resolvo os problemas, e mantenho a minha performance alta.


Como prometido, disse que deixaria aqui a forma de seres avisado, e é muito simples, basta assinar a nossa ListaVIP de Conteúdos e serás avisado sempre que um post sair fresquinho para te ajudar a evoluir para o próximo nível.


Temas como os 4 Modelos que um Treinador precisa de desenvolver para estar ativo na Profissão de Treinador entre muitos outros, desde liderança, carreira, princípios de treino, o TreinoMAP, comunicação do treinador, livros e artigos.


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Um abraço,

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