• Carlos MSilva

Como ter a Equipa Concentrada do inicio ao fim do jogo?

Atualizado: 21 de Nov de 2019

Como fazer com que a equipa entre concentrada e se mantenha até ao final do jogo?



Boa tarde,

Peguei numa equipa de formação escalão sub-15 este ano, e o que encontrei foi algo surreal.

Treinadores da época passada não fizeram um único treino com bola.

Foi todo ano treino físico.

Quando cheguei o futebol deles era balão para frente.


Eles, agora já tem princípios de jogo.

Mas falta intensidade suficiente para conseguirmos mais.

Entramos muito desconcentrados no início dos jogos e isso acaba por nós prejudicar muito.



Gostava se fosse possível ajudar-me

Como fazer que a equipa entre concentrada no início do jogo e se mantenha até ao final?

Nuno (Treinador Sub-15)


Boa tarde Nuno,

Essa é uma questão muito interessante e que a maior parte dos treinadores gostava de ver resolvida.


Não apenas um estagiário numa distrital ou um selecionador numa federação.

Todos mesmo querem essa resposta.


Mas antes de eu dar uma resposta que dá resultados a curto-prazo, eu gostava de apontar algumas razões para isso estar a acontecer.

  • Para os atletas estarem cada vez mais desconcentrados.

  • Porquê que isto acontece?

Só entendendo o porquê, poderemos saber as causas para as modificarmos.


A desconcentração acontece porque a metodologia de treino está parecida cada vez mais à disciplina de matemática.

Os motivos são muito parecidos.


Deixa-me dar um exemplo.

Os alunos (atletas no geral) chegam à aula de matemática e o professor (treinador) em vez de os envolver, começa por querer cumprir um programa pré-estabelecido (modelo de treino/ jogo).


Como o professor (treinador) está mais interessado que os alunos (atletas) aprendam o que ele (treinador) quer ensinar, do que em ligar o que eles (atletas) precisam de aprender, às experiências e problemas no dia-a-dia (problemas na competição), os atletas têm dificuldades em associar a importância de fazer as equações matemáticas (comportamentos táticos) para resolver os problemas do teste final (estratégia para o jogo).


Assim, para que o treinador tenha a atenção dos atletas, primeiro tem de saber envolver os atletas nos problemas que eles mesmos estão a sentir no jogo, para depois eles sentirem uma vontade e curiosidade de como vão resolver esse problema.



Este problema não se coloca num treino físico.

Quando treinamos uma questão física é simples, ou tens capacidade física ou não tens.

Não existe conteúdo em que seja necessário um envolvimento da atenção.

Fazes o exercício com o corpo desligado da mente, até se for preciso.


Apenas precisas de estar atento a ver como o colega faz, o colega que está à tua frente e depois desligas a tua mente. Nem precisaste de ouvir o treinador a explicar o que vais fazer.


Agora quando tens que envolver o atleta para que ele disponibilize a mente para estar atento, e se disponibilize para manter a mente a trabalhar continuamente para aprender os conteúdos (técnico-táticos), é necessário ter técnicas de comunicação que criem

  1. atração e, depois

  2. persuasão.


Uma dessas técnicas de atração é explicar o “porquê” antes de dar o conteúdo.

O que muitos de nós treinadores temos dificuldade em fazer.


O professor de matemática (no geral) também faz isso.

Chega à aula e começa a dar conteúdo.


Vamos abrir a página X do livro, e vamos ver o problema Y.

“2 meninos têm 1 laranja e ambos estão na guerra para ter essa laranja, quando o pai chega a casa, qual a solução mais simples para o pai e qual a quantidade de laranja que cada menino fica?”


Quando o treinador vai para o exercício de treino ou para a palestra, geralmente faz a mesma coisa.


Fala na descrição do exercício:

“Vamos juntar-nos naquele lado do campo e vamos dividir o grupo em dois.

Duas equipas de 4 jogadores, defrontam-se naquele campo de 20m x 20m.

Quem tem a bola tem de fazer 10 passes, quem está a defender tem de recuperar a bola e passar a um jogador que de primeira tem de receber a bola fora do quadrado.

Vamos treinar a posse de bola, e a reação à perda da bola para que quem recupera a bola não consiga fazer o passe para fora do quadrado.”

  • · Ok, e como é que isso está ligado aos problemas que os atletas sentem no jogo?

  • · Como é que isso está envolvido com o próximo jogo?

  • · Quais os problemas que eles têm sentido para atribuir importância à aprendizagem desse conteúdo?


A resposta a estas questão deveriam vir antes da explicação do exercício, criando um estado emocional de curiosidade que gera atenção antes da realização do exercício.


Muitas vezes, é por isto que os atletas têm dificuldades em começar o exercício e fazer o que foi pedido, porque nem ouviram o que o treinador disse.


A mesma coisa acontece na descrição da estratégia para o jogo:


“Vamos jogar em posse de bola, e procurar ter a bola o mais longe da nossa baliza.

É preciso ter os apoios e as linhas de passe próximas…

O nosso adversário de hoje, vai procurar jogar em contra-ataque por isso temos de estar bem posicionados para reagir à perda de bola”.


E enquanto isso, alguns atletas estão distraídos e não ouviram mais do que 5 minutos.

  • · Ok, mas como é que este jogo está ligado aquilo que temos vindo a crescer como equipa?

  • · Qual o verdadeiro desafio na nossa aprendizagem enquanto equipa para o jogo de hoje?

  • · Como é que o conteúdo desta semana é uma progressão para os problemas da semana anterior?

  • · Porquê que vale a pena fazer a posse de bola?


A resposta a estas questão deveriam vir antes da explicação da estratégia, criando um estado emocional de curiosidade que gera atenção antes da explicação.


E isso é o conteúdo, algo que deve vir apenas e só depois de os atletas estarem envolvidos pelas “razões” pelas quais vale a pena ouvir o conteúdo.


Então o treinador precisa de saber adicionar o “PORQUÊ” que vamos aprender o conteúdo de hoje, antes de dar o conteúdo.


Em algumas aulas que liberto no youtube ou no facebook, eu explico tudo o que tem de estar numa palestra no dia de jogo, numa palestra ao intervalo e na explicação dos exercícios.

O que dizer antes e depois, para que o treinador domine a sua comunicação e envolva os atletas a fazer os seus exercícios nos treinos e as suas táticas nos jogos.

E agora estou a sistematizar isso tudo num curso de forma organizada.

O curso “COMANDO”, onde o treinador se torna um “el Comandante”.


Atletas cada vez mais Distraídos

Mas mais do que atribuir importância ao que o treinador ensina, o atleta está cada vez mais distraído daquilo que é a informação que o treinador passa seja nos treinos, seja em dia de competição.


A distracção acontece devido à atenção em algo que não é necessário no momento.

“Não existe distracção, existe é atenção a coisas desnecessárias para o momento”.


O Atleta não está distraído.

Ele está a colocar a sua atenção ou em coisas que se passam fora do centro de jogo, ou está a colocar a atenção na bancada, ou está a colocar a atenção dentro dele mesmo, aquilo a que chamamos a “viajar na maionese”.


Ele simplesmente não está a colocar a atenção fora dele mesmo, não está a colocar a atenção no próximo passo que tem que dar, mas antes a olhar para aquilo que não precisa ou a “olhar” para aquilo que sente.


E isso acontece por várias razões, mas vou identificar 3:

  1. Ou não sabe ao que é que tem de “estar atento” no próximo momento, ou;

  2. Sabe mas não sente desafio para o fazer;

  3. Ou está bloqueado emocionalmente, através da ansiedade, frustração, o que o impede de ver a situação e de agir de acordo com as melhores decisões.


Bloqueados Emocionalmente

Na 3ª opção podemos entender que ter uma metodologia tática, que favorece a tomada de decisão pode não ser o suficiente para treinar a tomada de decisão, uma vez que esta também depende das emoções.


E se treinarmos a tática sem colocar as emoções que pretendemos nos exercícios então voltamos a fazer o mesmo que o professor de matemática, que dá exercícios sem se preocupar em adicionar a emoção necessária à aprendizagem e quando o aluno vai para o teste, ele falha, mesmo sabendo a matéria.


Porque a tomada de decisão tem de estar interligada ao saber fazer do atleta.


Por isso o treinador PRECISA de saber adicionar aos exercícios a emoção necessária para que a tomada de decisão baseada no conteúdo seja num contexto adequado, tal como a emoção que vai aparecer no jogo.


Não sabem no que têm de estar Concentrados

Relativamente à 3ª opção, o atleta não está atento no momento, porque não sabe que indicadores precisa de estar atento no momento.


E isso acontece porque geralmente o treinador quando treina não tem tendência de explicar os indicadores que o atleta precisa de estar atento para que possa tomar a decisão de ir para a direita ou para a esquerda, ou para passar ou para rematar.

  • · Em 2x1 contra o guarda-redes, quando remato?

  • Quais os indicadores que preciso de ler no contexto para saber se remato ou passo ao colega para finalizar?

  • · Quando estou no corredor (na fase de exploração de espaço do meio campo defensivo do adversário), quando é que insisto e faço superioridade numérica para explorar o espaço ou quando é que mudo de corredor para explorar o outro espaço contrário?

Ter indicadores ajuda os atletas a ter conteúdo para decidir.


É preciso definir esses indicadores, ligando-os aos princípios de jogo, e ainda ter um esquema de fácil clarificação para o passarmos de forma clara aos atletas.


Às vezes, sabemos essa informação na nossa cabeça, mas como não está tão clara, não conseguimos ser assertivos na nossa comunicação, o que como resultado final, ao fim de algum tempo, ficamos sem confiança.

Essa falta de confiança na nossa comunicação, ao fim de um tempo leva-nos a ficar frustrados e a colocar as causas nos nossos atletas… que estão desconcentrados.


Então podemos dizer que os atletas então desconcentrados no jogo ou, podemos dizer que não sabemos como os poderemos ajudar a estar focados.


Isto revela se estou a colocar a culpa neles, ou se estou a responsabilizar-me por saber como eu próprio posso mudar e aprender mais, para os mudar a eles (atletas).


Falta de Desafio

A 2ª opção é a mais crítica, mas mais fácil de resolver.


O 2º ponto faz-me lembrar de um jogador, o Quaresma.

Ele é altamente competente, mas nem sempre está 100% disponível para a competição durante todo o tempo.

Mas se não pensarmos no jogador mas atribuirmos as caraterísticas desse jogador a uma equipa, então eu posso ter uma equipa competente, mas que não está concentrada ou com o compromisso para um determinado jogo.


Mas a realidade é que essa equipa poderá estar em alguns jogos e outros não.

Normalmente o Treinador Fernando Santos, coloca o Quaresma em jogos de alto desafio, nos últimos minutos, isto porque a própria situação irá despoletar o melhor desse atleta.


Mas então e como lidar com uma equipa que só se sente desafiada para alguns jogos e por isso, se desconcentram?

É através da nossa comunicação na palestra na competição e na comunicação ao longo da semana.


É preciso desafia-los ao longo da semana, olhando para o próximo jogo como algum desafio que preciso adicionar.

No próprio jogo, preciso de criar um desafio simples, de fazer X remates (2) em 10 minutos, ou X recuperações (5) de bola no nosso meio-campo defensivo saindo X vezes (3) em contra-ataque.


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Estas são técnicas simples para serem aplicadas e que vão dar resultado já a curto-prazo.


Mas lembrar que todas elas devem ser entendidas num plano maior, aquilo a que se chama de estratégia, para que esses resultados atingidos, de concentração sejam encaixados a médio e longo prazo num hábito coletivo que fazem a nossa equipa estar concentrada.


É difícil de aprofundar num texto destes mas eu falo mais sobre tudo isto na

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